terça-feira, 31 de maio de 2011

O marido curioso

Renata acordou no mesmo instante em que o seu marido, Arnaldo, descia da cama; ao fundo, o som de uma sucessão de disparos de gelar o sangue nas veias.
- Aonde você vai, seu louco?- perguntou Renata, enquanto o marido desaparecia pela porta do quarto, para além da luz do abajur ao lado da cama – Volte aqui!
Ela se levantou da cama logo em seguida. Ignorou os chinelos e correu atrás do marido estúpido, que parecia ter sido atraído pelos estampidos contínuos da mesma forma que um gato teria sido atraído pelos miados de uma gata disposta a procriar.
- Arnaldo! – ela chamou, totalmente desperta pela onda de fúria que crescia em seu interior – Eu vou te arrebentar, se você não levar um tiro na testa antes disso!
Era verdade. O marido era um curioso fodido e inconsequente.
Quando alcançou a sala, viu-o diante da janela, completamente vulnerável, olhos esbugalhados pelo que quer que estivesse vendo lá fora.
- Arnaldo, sai já daí!
Ela ia correr até ele e puxá-lo pelo braço, arrastá-lo para bem longe daquela posição perigosa. Só que não deu tempo.
Arnaldo virou-se em sua direção, fazendo uma cara de meu-Deus-você-tem-que-ver-isso, sua boca começou a dizer algo no momento em que o vidro da janela se estilhaçou para dentro. Fragmentos cristalinos atingiram-lhe um lado do rosto, enquanto o outro lado explodia, chuviscando sangue no ar.
Renata escorregou, torceu um pé e gritou feito uma alma cozida em óleo fervente. Maior do que a dor lancinante no tornozelo, só mesmo o horror do cadáver de Arnaldo caído sob a janela, derramando os miolos do crânio estourado, aquela expressão de surpresa congelada em seu rosto, enquanto as luzes dançantes das viaturas que chegavam tingiam a sala com manchas de um vermelho proibitivo.


Pamela Cardoso

obrigada

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